Publicado originalmente na Agência J.Press. Com Ana Paula Lourenço. Foto: Martin Iglesias/LinkedIn.

Seja um fantasma ou uma presença irrevogável, a inflação é componente decisivo para qualquer sociedade

Se você pudesse definir a década de 80 em uma palavra, qual você usaria? Talvez a palavra mais citada fosse liberdade ou democracia, para um país recém-saído de uma ditadura militar. A palavra inflação pouco apareceria nos resultados. Mas, para quem viveu tal período, a lembrança da crise econômica é viva. Dormir com um preço e acordar com outro. Colocar notas de vários tipos (o cruzado velho, o cruzado novo, o real) em sacas. Rotuladores que não param de funcionar, remarcando valores. Essa imagem é clara, mas expressá-la em uma palavra não é uma tarefa tão simples. Isso porque a inflação sempre rodeia o cotidiano dos brasileiros, mas sua terminologia se restringe às páginas econômicas. As pessoas sentem seus efeitos, mas, quando perguntadas sobre o que é inflação e como defini-la, a resposta não vem à mente.

O que é a inflação? É quando a mesma quantia de dinheiro não compra mais a mesma quantidade de um produto. Assim sendo, em períodos quando a inflação é alta, a insatisfação popular é maior: seu salário não pode comprar as coisas que comprava há certo tempo. Por isso, a inflação é uma questão fundamental para os governantes: manter a inflação estável é impedir uma possível revolta popular – algo fundamental para uma possível reeleição. Assim sendo, durante a história do Brasil, vários presidentes se confrontaram com esse que é o maior dilema da economia de um país.

Substituição de importações e o Plano de Metas

A inflação é parte determinante da história econômica do Brasil. Apesar de ter posição de destaque nos governos recentes, como o de Fernando Collor, um histórico mostra como os governos, em décadas muito anteriores, debatiam-se e lutavam contra os problemas ocasionados pelo controle dos juros e da inflação alta.

Desde os primórdios da Era Vargas, a política de acelerar a industrialização tornou-se um dos motes da gestão. O governo age no intuito de promover a substituição de importações, onde ocorreria a produção interna de tudo o que antes era preciso importar, além de também incentivar o fortalecimento da indústria de base, utilizando de sucessivas desvalorizações da moeda para baratear o produto nos mercados interno e externo.

Tais políticas, apesar de serem bem sucedidas no que tange à aceleração da industrialização, geraram um problema inflacionário constante durante todo o governo Vargas. O combate à inflação, no segundo governo getulista, tornou necessário que se fizesse uma política contrária à preconizada pelo discurso nacionalista do presidente. O problema se completava devido à proximidade da reeleição. A insatisfação com a situação econômica do país se acumulava e, mesmo com algumas medidas que serviram para satisfazer alguns setores, a política econômica ainda gerava descontentamento, o que fatalmente contribuiu para a derrocada do governo.

O processo de substituição de importações, iniciado por Vargas, teria continuidade no governo de Juscelino Kubitschek, iniciado em 1956. Com o Plano de Metas e o slogan do “Cinquenta anos em cinco”, Juscelino colocou em prática uma política de modernização e desenvolvimentismo. O Plano de Metas atingiu seus objetivos de crescimento vertiginoso e alcançou ótimos níveis em seus cinco setores básicos (energia, transportes, indústrias de base, educação e alimentação). Porém, o custo de todo esse desenvolvimento foi caro. O financiamento do Plano foi, substancialmente, feito a partir de emissão monetária, o que gerou nos anos seguintes alta inflação e crescente aumento da dívida externa. Os resultados da modernização industrial provocaram sérias consequências negativas para a economia brasileira dos anos posteriores.

A inflação na ditadura militar

Após a implementação do Plano de Metas no governo de Juscelino, o Brasil enfrentou uma séria estagnação econômica, com diminuição da taxa de investimentos, de crescimento e de renda. A instabilidade política resultante da constante troca de governantes no período entre Jânio Quadros e João Goulart gerou o impedimento da adoção de uma política econômica consistente e que combata a crise.

Para reverter a situação, o governo do início do Regime Militar adota uma política recessiva, com base no controle dos gastos públicos e da liberdade de crédito, consolidada no Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), cujo objetivo é baixar a inflação e criar condições para que a economia se restabeleça. A política funcionou: a inflação, em quatro anos, baixou de 90% para 25%. Paralelamente, os incentivos do governo à retomada do crescimento fizeram com que, no governo Castelo Branco, a economia e a indústria, em especial a de construção civil e bens duráveis, voltassem a crescer.

No período de 1968 a 1973, o Brasil passou pelo que é chamado de “Milagre Econômico”. O modelo de crescimento econômico contou com capital externo, intervencionismo estatal e participação forte do empresariado brasileiro. Após 1973, o crescimento econômico começa a declinar e a inflação torna a aumentar.

No governo Geisel, houve tentativas de restabelecer o crescimento do “Milagre”, inspirando-se no modelo japonês de desenvolvimento. Apesar de não obterem muito sucesso, o Brasil ainda viveu alguns anos de relativo crescimento, contrariando a lógica mundial, que atravessava um grande período de recessão. Porém, a economia declinava cada vez mais, chegando a 1983 com 211% de inflação. Uma das principais consequências desse momento de crise foi o crescimento demasiado do desemprego e o ganho de força das greves e dos movimentos sociais, cada vez mais amplos devido ao crescente aumento de preços. A ditadura terminou deixando um país arrasado economicamente. Mais uma vez, a crise econômica contribuía para a derrocada de uma situação política que há décadas dominava o Brasil.

A Nova República e o restabelecimento da economia

A nova fase do governo brasileiro, com a retomada do poder pelos civis, foi marcada pelos sucessivos planos econômicos de tentativa de controle da inflação através do congelamento de preços. Em 1986, o governo Sarney anunciou o Plano Cruzado: uma política de controle sem utilizar as medidas ortodoxas já testadas, sem sucesso, no início da década pelo general Figueiredo. O Plano Cruzado busca conter a hiperinflação estabelecendo uma nova moeda, o Cruzado, e congelando preços e salários. Porém, a inflação volta a subir, atingindo 415% em 1987. Novos planos criados, novos insucessos: o Plano Bresser e o Plano Verão não foram capazes de conter a inflação, que atingiu absurdos 1782% em 1989.

A eleição de Fernando Collor de Mello trouxe nova esperança à população: o presidente, jovem, símbolo de renovação, trazia esperanças para o resgate da economia e era visto como salvador na estagnação em que o país se encontrava. No início do governo, mais um plano foi decretado: o Plano Collor, que realizaria a reforma monetária e também congelaria os preços. A reforma monetária serviu para reduzir a inflação a números de um só dígito. Porém, seu plano era muito arriscado, devido à determinação do confisco e bloqueio de poupanças e contas-corrente. O plano deu certo por alguns meses, fracassando por completo pouco tempo depois. O desemprego disparou, juntamente com a desaprovação do governo. É aqui que as famosas cenas de aumento diário dos preços tomam lugar: o caos econômico se espalhava. O Brasil entrava na maior recessão de sua história.

Em 1994, durante o governo de Itamar Franco, finalmente uma esperança real pôde se instalar no povo. O Plano Real, idealizado pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, uniu o povo no sentido de combater efetivamente a inflação, equilibrando as contas e realizando enxugamento de gastos e da máquina pública. O Plano Real deu início às intensas privatizações, à abertura da economia e às políticas monetárias restritivas, com uma alta nos juros. O plano aliou forças com a entrada de dólares no país, o que gerou aumento de consumo e combateu, efetivamente, uma inflação que perdurava desde meados de 1945. A política econômica levou Fernando Henrique à presidência em 1994 com grande aprovação popular. Nos anos subsequentes, porém, a política neoliberal, que não favorecia a indústria nacional, aliada a sucessivas crises mundiais, levou a consequências negativas, como alto desemprego no segundo mandato de Fernando Henrique. A ânsia por renovação levou à eleição de Lula em 2002.

A economia brasileira atual e o sistema de metas de inflação

Um PIB trilionário, a sexta maior economia do mundo, uma política econômica estável, uma das quatro maiores economias emergentes do mundo, em crescimento constante: este é o ótimo panorama em que o Brasil vive, imerso em uma das melhores situações econômicas de sua história. O Brasil nunca esteve tão bem no cenário da economia mundial como está hoje.

No centro disso tudo, está o Banco Central, presidido hoje pelo economista gaúcho Alexandre Tombini. Uma de suas obrigações centrais é evitar a desvalorização da moeda brasileira, através da política de contenção da inflação. O controle da inflação se dá pelo ajuste constante das taxas de juros. Com todo o histórico brasileiro em inflação, não se pode negar que a situação se inverteu de maneira gloriosa: a inflação brasileira, hoje, está altamente controlada. Desde 1999, o Brasil vive em um sistema de metas para a inflação.

Nesse regime, o Conselho Monetário Nacional, após uma longa série de análises e dados sobre a economia, define uma meta para o percentual da inflação, com uma variação máxima de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Para o Banco Central, a maior preocupação do regime de metas é manter os preços estáveis. Esse sistema, introduzido pelo presidente do BC Armínio Fraga, foi consolidado por seu sucessor, Henrique Meirelles. Porém, esse regime de metas é mal visto, em alguns aspectos, por atrapalhar o desenvolvimento brasileiro em favor do controle da inflação. Entre alguns dos que mais criticaram essa política estão o ministro da Fazenda Guido Mantega e o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Luciano Coutinho.

Apesar dessas críticas, a editora da seção “Brasil” do jornal Valor Econômico, Denise Neumann, acredita que o governo manterá o sistema de metas. “O que já vem acontecendo é que o Banco Central administra esse sistema de uma forma mais flexível do que no passado. Ele considera mais variáveis na hora de olhar pra inflação. Então, eu acho que ele não vai abandonar esse sistema, mas sim consolidá-lo ainda mais”, afirma ela. Uma análise mais profunda no sistema prova que em 2001, 2002 e 2003, a inflação ultrapassou os limites previstos. Em 2004, 2005 e 2008, a inflação ficou acima da meta, porém ainda dentro da variação limite. Já em 2006, 2007 e 2009, a inflação ficou abaixo da meta.

Apesar do cumprimento de metas de inflação estar sendo consolidado ano após ano, tal controle depende de variáveis como expectativas, alianças e imagem política. O Banco Central e seu presidente precisam receber, por parte dos empresários e jornalistas, a confiança em que a meta de inflação será cumprida. Dessa maneira, fica facilitado que os preços sejam ajustados em torno desse índice. Em oposição, se houver mera expectativa de que a inflação vá aumentar, é possível que haja aumento dos juros mesmo que a inflação permaneça igual.

As projeções feitas sobre a inflação são feitas a partir de uma série de dados coletados e estudos feitos, reunidos, a cada 45 dias, para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Essa reunião é o que define o aumento ou redução das taxas de juros. Apesar das projeções, os elevados gastos públicos são comumente vistos como os grandes vilões das políticas inflacionárias. Para os críticos, todos os planos de contenção feitos no momento mais crítico da inflação não funcionaram justamente devido ao descontrole de gastos do governo. Portanto, não seria coerente elevar os juros se, do outro lado, o governo continua gastando indefinidamente.

Para Denise Neumann, “o ideal seria se o governo conseguisse mudar um pouco a composição dos altos gastos. Hoje, quando se olha para onde o governo gasta dinheiro, nota-se que se gasta muito com o custeio da máquina, que vai muito além dos salários. Entram aí coisas como viagens, copos, café, coisas que não se consegue nem imaginar. O que acaba acontecendo: sobra pouco dinheiro pra fazer investimento em infraestrutura. Falta um trabalho mais sério do governo no sentido de tentar mudar isso, o que também ajudaria na inflação, porque os gastos de custeio também alimentam o consumo. Se o governo consegue controlar a demanda de itens do dia a dia, ele também vai contribuir para um controle de preços, porque a demanda por eles vai diminuir”, completa.

Paralelamente a isso, entra a questão de como a inflação é sentida pelas variadas classes. A Fundação Getúlio Vargas, em estudo que avalia os índices de preços, denominado IPC, constata bem a discrepância entre uma classe e outra quando se trata da inflação. O índice que avalia os preços para famílias com renda entre 1 e 2,5 salários mínimos, IPC-C1, constatou que este havia superado o índice para famílias com renda entre 1 e 33 salários mínimos, IPC-BR. Enquanto no primeiro a alta é de 7,22%, no segundo é de 4,97%. “A população de baixa renda gasta a maior parte da sua renda com alimentos, que são um dos itens que mais sofreu com a inflação esse ano. Portanto, consequentemente, a inflação pra essa parcela da população é maior”, afirma Denise.

Mas se, no geral, a inflação é hoje apenas um fantasma no Brasil, ao olhar para as nações ao lado tal aparição se corporifica e vira parte do cotidiano de sua população. O olhar atento sobre os países latinoamericanos faz-se necessário para que evitemos o efeito dominó tão recorrente na região.

Cacerolas, picaretas e cartões de crédito na terra do Obelisco

Oito de novembro foi uma noite difícil para o governo argentino. Em um protesto sem precedentes na gestão kirchnerista, centenas de milhares empunharam as famosas cacerolas em diversos pontos do país na manifestação conhecida por 8N. Planejado pelas redes sociais, teve seu epicentro no Obelisco e se estendeu por avenidas como a 9 de Julio, cujo usual trânsito cedeu lugar a massas populacionais, com cartazes protestando contra a inflação, a insegurança, a restrição à compra de dólares, a corrupção governamental, reformas constitucionais e também uma possível reeleição da presidenta Cristina Kirchner.

A inflação no país cresce de forma persistente desde 2007, quando o governo fez uma tentativa de controlar os preços de vários produtos, de forma que a inflação como um todo parecesse menor. O cálculo da inflação é feito de uma forma geral; assim, se alguns preços permanecem estáveis, o valor do aumento da inflação não é tão alto. Mas, desde 2011, o governo vem eliminando alguns subsídios de tarifas públicas – e esse baque foi fortemente sentido pela população.

Apesar de a inflação ser o principal motivo dos recentes protestos, a inflação não é a única causa. É o que ressalta o correspondente na Argentina pelo jornal O Estado de São Paulo, Ariel Palacios. “Foram vários fatores que confluíram. A inflação é um deles, é o ponto mais importante, mas também tem o aumento da criminalidade, tem a corrupção (o fato de que a população começou a ver que os integrantes do governo tinham certos luxos que a maior parte da população não tinha, como, por exemplo, as joias da presidente e a notícia da remodelação de um banheiro no primeiro andar da Casa Rosada, que é o mesmo andar em que a Cristina Kirchner tem seu escritório, que custou o equivalente a um milhão de reais), tem o aumento do desemprego, a pobreza (que tinha descido e voltou a subir e muito), e também o que eles chamam de prepotência do governo, especialmente quando, por exemplo, ele nega a existência da inflação.”

Essa manipulação de índices inflacionários, aliás, faz parte de uma insistência do governo em tentar convencer a população de que nada está errado. “A credibilidade sobre os índices, que ainda existia há cinco anos, quando começou a manipulação dos índices [ou seja, em 2007], foi-se esvaindo, esvaindo e hoje em dia ninguém leva a sério. Mas, por outro lado, o governo insiste nisso porque alguns títulos da dívida pública da Argentina (ou seja, títulos do governo) são reajustados de acordo com a inflação, então você paga menos aos credores porque a inflação oficial é menor, o que faz com que os credores se irritem, mas esse é o reajuste oficial. Há outros títulos que são reajustados com base em outras coisas, como, se o PIB cresceu x% os títulos aumentam x%, mas existem títulos corrigidos pela inflação [que são algo entre 40 e 50% dos títulos], então, para o governo, é conveniente mentir nesse aspecto sobre a inflação, pelo fato que se paga menos juros pela dívida pública. É uma picaretagem, claramente, e reforça o discurso do governo de que ‘aqui não há inflação, a inflação é pequena’. É uma coisa meramente simbólica, na prática as pessoas sabem que não, mas é aquela coisa de que ‘se você insiste e insiste numa mentira, ela acaba parecendo que é verdade’. Para alguns setores, é muito diferente o governo dizer ‘sim, a inflação é altíssima’ de dizer ‘não, eles estão te enganando, a inflação não é tão alta como parece’. E as pessoas acham ‘ah, será que eu estava tendo a impressão de que ela é alta, mas não, não deve ser tão alta? ’”, analisa o correspondente.

A inflação no país é tão grave porque o risco de se ter um quadro ainda pior é preponderante. Isso porque o país está apoiado em uma série de subsídios governamentais a empresas privadas. “Se um dia esses subsídios [privados] acabam, você tem uma alta de preços brutal. Então, ao invés de ir subindo o preço devagar ao longo dos anos, você acaba subindo os preços de uma vez só, o que faz com que aí sim se corra o risco de provocar uma disparada ainda maior na inflação. Eu acho que é tapar o Sol com a peneira, tanto a intervenção estatal direta quanto o subsídio às empresas privadas. Na época da crise, em 2001, 2002 e ainda em 2003, isso era necessário, o país estava indo para o precipício. (…) Mas já há muito tempo essa ajuda deveria ter sido diminuída gradualmente – você também não pode reduzir tudo de uma hora pra outra, porque há um baque, mas já teria de ter acontecido há certo tempo e não aconteceu. As coisas são deixadas para a última hora e na última hora tudo termina mal.” Característica que, ressalta, é um traço característico dos governantes argentinos, artistas na mania de empurrar o problema para frente.

Em algum momento, tanto a Argentina quanto o Brasil adotaram a paridade de suas moedas com o dólar americano. Mas o que faz com que o Brasil tenha administrado melhor sua inflação é sua tradição política relativamente estável, comparando-se com o país dos hermanos. “Quando o Collor foi destituído, a Bovespa não despencou, não houve uma crise, não houve uma paralisia, sem saber o que poderia acontecer. Quando o Lula tomou posse também não houve uma disparada, uma fuga de capitais. Tudo no Brasil é relativamente mais tranquilo comparado com a Argentina, porque na Argentina as trocas de poder são sempre drásticas e até diria traumáticas.” A instabilidade política causa medo nos argentinos, o que reflete em sua expectativa inflacionária (ou seja, o quanto acham que os preços subirão). “Nessa troca constante de governo e de políticas econômicas, a população argentina sempre fica com a expectativa de que o cenário seguinte pode ser pior. Aí as pessoas economizam em dólares, reajustam os preços em dólares, porque é o único ponto de garantia; e, se você reajusta os preços em uma moeda que não é sua, e essa moeda é forte, você acaba gerando mais inflação. (…) Você possui vários assuntos que confluem e acabam fazendo com que a inflação aumente por diferentes motivos: psicológicos, financeiros, pelos gastos do governo em obras públicas… São muitos fatores juntos.”

Com o desespero crescente, os argentinos passam a mudar seus hábitos econômicos. Há um crescimento da estocagem de bens, como vimos na década de 80 no Brasil, e um hábito comum aos brasileiros foi incorporado: a loucura do cartão de crédito. “As pessoas usam o cartão de crédito para estocar, algo que não era comum na Argentina (ao contrário do Brasil), para ir tentando comprar algo agora em vez de correr o risco de comprar algo mais tarde. E têm as prestações. O problema dos cartões de crédito é que as pessoas ficam desesperadas e, mesmo que essas parcelas sejam sem juros em longo prazo, as pessoas acabam gastando mais do que poderiam gastar e acabam hipotecando seus salários. Então você tem o medo do desemprego, o medo da pobreza, mas você tem o aumento do consumo, porque as pessoas estão consumindo agora antes que os preços aumentem. (…) Quando você aumenta o consumo, e a oferta de produtos é pequena, porque as importações estão restringidas (um assunto de déficit comercial do governo argentino), os comerciantes aumentam o preço do produto. É uma coisa enlouquecida, você acaba gerando mais inflação por outras formas. E aí que está: e se depois você não puder pagar o cartão de crédito? Como o governo vai lidar com a inadimplência? Esse é outro fator que ainda não está muito claro. Então, você vai gerando mais dúvidas sobre a economia argentina.”

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